Minha breve história com a Nutrição

Minha breve história com a Nutrição

Aos 15 anos eu era garoto magrelo que, por alguma razão que ainda desconheço, embora tenha pistas, me sentia menosprezado. Meu primo, um cara querido por todos (continua sendo) e muito forte para a idade, era minha maior referência. Naquela época, comecei a treinar para ser como ele e fui morar com meu avô, alguém obcecado por alimentação saudável que me ensinou muito sobre este assunto, dentro das suas convicções, e tantos outros que carregarei por toda a vida.

O desejo de me validar através do meu físico me levou a estudar Nutrição por conta própria, consumindo absolutamente todo o material relacionado que pudesse colocar as mãos, e não demorou para eu estar me dedicando de forma obsessiva à construção do meu corpo e ao cuidado da minha, pensava eu, saúde, a ponto de meus amigos me prepararem um bolo de carne no meu aniversário de 16 anos, pois eu não admitia comer açúcar em hipótese alguma, algo que durou mais de 6 rigorosos meses. Daí pra frente eu experimentei todas as dietas que você puder imaginar, incluindo low-carb, cetogênica e até mesmo paleo. Nesta época, cheguei até a vender uma das minhas duas únicas calças que usava para ir ao colégio para poder comprar suplementos.

Tempo depois entrei na faculdade de Administração e no Exército, o que configura todo um capítulo à parte, de onde eu possa talvez apenas mencionar que senti na pele o que é fome, no sentido de escassez de alimento, algo bastante diferente da vontade de comer oriunda da privação voluntária para se atingir 5% de gordura corporal (e certamente também de forma alguma comparável à fome resultante da miséria, o mal mais triste que ainda assola a humanidade).

Já Tenente do EB e formado em Administração, fui realizar o sonho de competir no fisiculturismo. Tendo planejado minha própria dieta, tive a alegria de ser campeão e, diante da grande demanda de pessoas me pedindo para que planejasse também as suas, senti o chamado da Nutrição e voltei a sentar numa carteira dentro da Universidade.

Os óbvios exageros até então me provocaram uma ruptura de tendão do ombro e fui obrigado a fazer uma cirurgia, que me deixou parado por 8 meses, me forçou a parar de tomar esteroides e me fez perder 15kg. Eu voltei a ser mirrado, agora adulto. Desta vez, entretanto, já não sentia que precisava do físico para ser validado, pois tinha estrelas no ombro, condecorações e um troféu pra mostrar (a ilusão só tomou outra forma).

Dois anos depois, após um evento que me levou ao que considerei o fundo do meu poço, com a autoestima arrasada, fui me resolver da forma que eu sabia: voltei a treinar sério e me sagrei campeão catarinense de fisiculturismo clássico. Nunca falei isso em público, mas eu sequer sorri quando cheguei em casa e coloquei o troféu em cima da mesa. Na mesma hora eu senti todo o vazio do qual fugirá nos 4 meses anteriores, embriagado com a rotina de militar, estudante e atleta. Vale mencionar que ao longo do meu trajeto no fisiculturismo cheguei a ter vergonha de tirar a camiseta na praia, por mais absurdo que isto pareça, e vivi muitos episódios de compulsão alimentar em virtude dos fármacos que utilizei e das privações as quais me submeti.

Quando não aprendemos a lição, a vida bate de volta. Rompi outro tendão e tudo se repetiu: mais 8 meses e menos 15kg. Desta vez eu sabia que precisava encarar de frente. Resolvi mergulhar mais fundo. Comecei a estudar Budismo, a meditar, virei vegetariano e fiz 2 retiros Vipassana. Nada disso fez de mim um iluminado, continuo todo enrolado entre meus desejos e aversões, mas me permitiu dar um pequeno passo em frente, discretamente mais consciente, ou menos iludido, do que antes.

A faculdade, que eu de maneira arrogante considerava apenas uma formalidade, me ensinou que na verdade eu sabia muito pouco sobre alimentação. Era um mero contador de nutrientes, tão eficiente nisso quanto ignorante sobre tudo o mais que envolve a Nutrição, a ciência mais incrível com a qual já tive contato. Expandi meus horizontes e passei a me interessar pelos aspectos comportamentais, culturais, sociais e políticos que envolvem o ato de comer e impactam naquilo que, com maior ou menor liberdade de escolha, colocamos nos nossos pratos. Meu próximo passo neste sentido será explorar o, para mim, inóspito campo da neurociência.

Hoje faz 1 ano que recebi o meu tão sonhado e batalhado número de registro profissional. Foi um ano intenso de trabalho, tão duro quanto eu ainda não havia experimentado, e de grandes conquistas também. Estas conquistas, entretanto, não resultaram dos últimos 12 meses de dedicação, mas sim desta história que começou há 15 anos atrás. Não penso que eu tenha nascido para ser nutricionista, afinal já exerci e poderei ainda exercer muitas outras profissões, nada é permanente, mas certamente eu fui forjado um.

De tudo isso, somente um enredo de tantos possíveis, bem como você vive o seu próprio, me resta uma única conclusão: eu sou apenas um ser que deseja ser feliz e evitar o sofrimento, exatamente como você. Exatamente como todos os outros animais não humanos. Ao aliviar um pouco do seu sofrimento, eu alívio um pouco do meu também. E isto me faz feliz. A Nutrição foi o veículo que eu encontrei para fazer isso, e eu agradeço, do fundo do meu coração, a todos que me deram, de alguma forma, esta oportunidade ao longo deste ano. Eu aprendo muito com cada um de vocês. Aos que não fui capaz de ajudar, peço desculpas. Garanto que dei o máximo que pude naquele momento e prometo estudar todos os dias para reduzir as minhas limitações.

Um forte abraço,

Testoni.

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